sexta-feira, 12 de setembro de 2008

eles são invisiveis...



22h.22m

Começava a ficar impaciente. O metro nunca mais aparecia e apetecia-me gritar aos senhores que tinha de apanhar um comboio as 22h.30m e agradecia que se despachassem! Fui ver-te, é claro que fui ver-te. Pouco me importa a hora de caminho... hoje precisava mesmo de te ver.

22h.23m

Apareceu o metro. Obrigada por me ouvirem, senhores.

22h.25m

Sempre gostei de observar as pessoas a deixarem o metro. Vêm apressadas, vêm com os casacos vestidos, com pastas na mão, mala a tiracolo, velhos, jovens, gordos, altos, magros, com muita roupa amarela, com a gabardine preta até aos joelhos. E vêm de onde? E vão para onde? Gosto sempre de imaginar. Hoje não tinha tempo... Sai disparada do metro sugando os 5minutos que me restavam para comprar um bilhete e meter-me no comboio...

22h.30m

Em pé, cansada, os saltos a vingarem-se de mim, parti no comboio.
Triste, parcialmente triste. Mais triste ainda por não saber o porquê de estar triste! Mergulhada no meu egocentrismo, levantei de repente a cabeça encostada à janela mesmo a tempo de vê-LO. Vinha de muletas. Calças rasgadas, camisa quadriculada, casaco gasto, sem cor, muito largo, barba por fazer à anos e anos, cabelo sujo, cinzento. Poucos dentes, pele envelhecida, e o olhar... Olhar? Não lhe vi olhar... acho que morreu e ninguém lhe disse. Vinha pedindo um pequenino auxilio... e as pessoas?! Ninguém olha. Ele é invisivel. Fui invadida por uma enorme vontade de me levantar e dar-lhe tudo o que tinha na carteira e dizer "tome, tome que você não é invisivel". Não o fiz. Cheirava a álcool... E num segundo pensei que estaria a contribuir para uma garrafinha de vodka e voltei a colar a cabeça na janela. Ele era invisivel. Abri muito os olhos para me impedir de chorar. Afinal, eu sou isto. Um produto da sociedade. Igual a tantos outros, a todos.

Até quando é que vamos fingir que eles não existem?

3 comentários:

Sr. Jeremias disse...

Fizeste-me lembrar este do Álvaro.

OLHAR VAGABUNDO disse...

pois...sociedade essa louca...

beijo vagabundo

Ella disse...

pois... sociedade louca mesmo. mas a mim custa-me simplesmente conformar-me. não pode ser simplesmente assim, tão simples.