domingo, 30 de novembro de 2008

saudades.

Tenho saudades. Saudades das noites de verão. Saudades dos 16 anos, de jurar que nunca ia haver amanhã, que a noite ia continuar assim para sempre na loucura viva de quem sabe sentir e dançar sem ter de provar nada a ninguém. Tenho saudades de sentir, tenho saudades de escrever. A falta que me fazem as manchas de letras que me acorriam nas viagens de comboio. A longa imaginação já não tem saída, as letras fogem, os castelos já não se constroem e ainda se desfazem os que já estavam erguidos. Tenho saudades de rir, de memorizar, de lembrar, de beber todos os segundos do dia e reporta-los deitada na cama na folha branca tão minha, tão eu. Tenho saudades de reconhecer Fernando Pessoa como amigo e vizinho do lado, de cometer loucuras e de cantar a vida. Tenho saudades de ser eu, a de sempre.

domingo, 16 de novembro de 2008

cúmplices?

Desisti há muito tempo do ser humano. Quando tu chegaste, traçava linhas liláses nas fotografias desfocadas que são as minhas memórias. São desfocadas porque assim têm de o ser, porque não importam lembrar. Também em ti descobri caminhos que aprendeste e quiseste desaprender, descobri-te os desvios e vazios. Contudo, sei, e isto sei mesmo porque tentei, nem o ruído dos meus sons vagos alcançam o teu coração. Entendo-te, não tivesse eu resistido sempre de modo igual. Prometi em tempos que jamais voltaria a querer. Prometi que não voltaria a abrir os braços e a sonhar. Mas, sob a luz da lua dou por mim envolta em ti, e sei que quebrei as promessas. Quebraste-mas. As tuas palavras traduzem-se no teu corpo vivo e pulsante, que me altera o vazio da consciência. Que me altera. E, devagar, as absurdidades da alma esquecem-me o corpo cansado. Nada existe para além do escuro em redor, não há mais que os nossos dedos entrelaçados. E, num mundo repleto de mentes e sentires que não reconheço nem sei, não precisas dizer mais nada... Tu sabes-me.

Agora, já não podemos ser cúmplices. Sabemos demasiado um do outro.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

escuro.

Vagueias pela rua, noite posta. Um ou outro carro passa em grandes intervalos, só te sentes parte da realidade pelos candeeiros acesos que iluminam as casas dos passeios, abandonadas. E não entendes, não entendes como se eliminam assim as coisas e deixam-nas ficar abandonadas. O frio corrói, apertas as mãos com mais força dentro do casaco, aconhegas o rosto para mais perto do cachecol. Num momento de subtil traição, os candeeiros apagam-se. Todos. Num mesmo tempo. Andas mais rápido, não queres sentir o inconsciente transportar-te para as incontáveis noites sentado na cama, no escuro, com medo. Dás longos passos e quando te apercebes vais cantando baixinho, foi o que te ensinaram nos primeiros anos para afastar o silêncio e o preto em volta. E de longe aproximam-se faróis, a luz aquece-te um pouco mais. Mas distante de tanta gente que quando te olha só vê as rugas, deparas-te com faróis que te iluminam e só te vêm o medo. Do escuro? Não é do escuro que tens medo.

domingo, 9 de novembro de 2008

8.00 am

Abres-me a porta. São 8 da manhã e estou atrasada para dormir. Vim andando pelas ruas, encostando-me às paredes, tentando fixar o ponto que me ia trazer até ti. Fizeste a cama em tempo record, dizes que arrumaste a casa... Não vi nem pude ver, o peso da noite é grande, muitas horas a olhar para o mesmo sitio, muitas horas a ver o que não deveria ter visto. Deixo o corpo cair lentamente na cama, enquanto as minhas forças (ou falta delas) confirmam-me que não vou acordar amanhã. Estou demasiado cansada já para te poder olhar como deveria... Os olhos fecham-se mas continuo acordada por dentro, inquieta. Sei que me olhas. Só peço que não desapareças... que se acordar amanhã prometo-te então que largo os vicios. Menos o de ti.

sábado, 8 de novembro de 2008

inúmeras vidas.

Espalho pequenos cartões pelo chão na curiosidade extrema de ler tudo aquilo que fui escrevendo e juntando durante dias, meses. São pedaços de dias perdidos, passados. É um rio de letras que cuida de mim e que me acorre sempre que preciso de me lembrar as vidas que já vivi.

"Esta vida já não me pertence. Continuo apenas a vivê-la e a usurpá-la. Antes causava-me ânsias, agora já não me importo..." (adaptado)

"Amanhã pode chover que o dia continuará bonito de se viver!!"

E instintivamente sorrio. Afinal, existem registos de dias optimistas.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Led Zeppelin.

Acordei mal disposta. Ou melhor, acordaram-me.
Levantei-me chateada com o mundo, sim. A pensar se valia a pena contar até 10 e dizer bom dia de novo. Mas tava tão chateada que não me queria lembrar sequer como contar até 10. Comi os meus cereais e dirigi-me ao banho. Liguei a música bem alto a ver se deixava de me ouvir interiormente...

Led Zeppellin - Since I've been Loving You

Fiquei estática ao pé da porta do quarto... Quantas não foram as noites. E as manhãs de inverno frias, geladas, que só isto me aquecia. Só me lembra de ti, porque começou em ti, contigo, e dura desde sempre.

baby since I've been lovin' you I'm about to loose my worried mind...

Meu deus, mudas o meu dia com uma facilidade. Aconcheguei-me na música e sorri para o mundo o resto do dia, porque fiquei a ouvi-la o resto do dia. E nos encontrões na faculdade com gentes e gentes desencantei-te no meio duns estudantes apressados. Paraste e deste-me um beijo na minha face gelada, sorriste e foste embora. Mas eu sei que tu sabes que mudas o meu dia quando queres. Que ainda mudas.

"Eu faço-te sorrir quando quiser."

disseste-me há uns meses atrás. Sorri no minuto em que disseste isso e sorrio só de ouvir o teu nome. Hoje foi a música que me lembrou de ti. Alguém comentou no youtube que fazer sexo enquanto se ouve esta música e depois de ter fumado umas é do melhor que há... Não vou opinar, talvez deva ser. Sei que ouvi-la faz-me viver-te. Mas um dia talvez experimente isso.

imóvel.

querido frank,
Tenho estado imóvel ao lado da vida,
vendo-a passar por mim.
Quero mergulhar no rio, quero sentir a corrente.