Desisti há muito tempo do ser humano. Quando tu chegaste, traçava linhas liláses nas fotografias desfocadas que são as minhas memórias. São desfocadas porque assim têm de o ser, porque não importam lembrar. Também em ti descobri caminhos que aprendeste e quiseste desaprender, descobri-te os desvios e vazios. Contudo, sei, e isto sei mesmo porque tentei, nem o ruído dos meus sons vagos alcançam o teu coração. Entendo-te, não tivesse eu resistido sempre de modo igual. Prometi em tempos que jamais voltaria a querer. Prometi que não voltaria a abrir os braços e a sonhar. Mas, sob a luz da lua dou por mim envolta em ti, e sei que quebrei as promessas. Quebraste-mas. As tuas palavras traduzem-se no teu corpo vivo e pulsante, que me altera o vazio da consciência. Que me altera. E, devagar, as absurdidades da alma esquecem-me o corpo cansado. Nada existe para além do escuro em redor, não há mais que os nossos dedos entrelaçados. E, num mundo repleto de mentes e sentires que não reconheço nem sei, não precisas dizer mais nada... Tu sabes-me.
Agora, já não podemos ser cúmplices. Sabemos demasiado um do outro.
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